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Cartilha criada pelas mãos de mulheres tatuadoras de BH: reação efetiva contra o assédio em estúdios

22 de maio de 2019 Equipe Find Compartilhar facebook Twitter

Você vai fazer sua primeira tatuagem. Escolheu a arte, o local, o tatuador, observou os mínimos detalhes. Juntou dinheiro, criou coragem e finalmente conseguiu um horário com um profissional de certo renome. Então, durante a realização de um sonho antigo, você é abusada sexualmente. E pior, carrega a lembrança na pele.

Essa história aconteceu em Belo Horizonte, e não foi uma nem duas vezes.

Após as denùncias, Nathália Corrêa, tatuadora na cidade de Belo Horizonte fez um post no Instagram com orientações para que os clientes conseguissem diferenciar o que era um procedimento normal na tattoo e o que era anti-profissional. A partir daí, de forma orgânica, um coletivo de mais de 20 mulheres se reuniu, além da Nathália, podemos ressaltar a participação de artistas como, Bruna Martins, Camilla Campos, Lu Alvernaz, Thereza Nardelli, Moa, além da empreendedora Ana Pedersoli, a embaixadora do Coletivo “Não é Não” Luiza Alana e integrante Laís Petrina, a professora e ativista Duda Salabert e nós, da Find Tattoo, estamos nessa luta.

Essa união se deu para a criação da cartilha informativa sobre tattoo segura e como denunciar um assediador.   

A união e o levante

Em março deste ano, após um post no Instagram,  Duda Salabert recebeu centenas de relatos em menos de 24 horas, e 40 desses, eram sobre o mesmo tatuador, que atuava na região Centro-Sul de Belo Horizonte. Ela foi a responsável por reunir os relatos, que se tornaram denúncias formais, e encaminhar ao Ministério Público, o que culminou na prisão de um dos agressores.

O que se repete na maioria dos casos é que a vítima não tem certeza se a ação do tatuador é um procedimento padrão ou não, fica com medo da tatuagem ficar ruim e não sabe como agir após o abuso sexual.

Depois desses acontecimentos, uma necessidade de falar sobre, se organizar e de fazer algo para transformar esse cenário era urgente, por isso, fizemos uma roda de conversa sobre o corpo e consentimento, abordando o trabalho com o corpo. Percebemos que era algo em comum nos relatos das vítimas: convicção de que os abusos sofridos eram parte de um procedimento “normal” da tatuagem”, relata Moa, uma das criadoras da Cartilha.

Thereza Nardelli, criadora da icônica ilustração “Ninguém solta a mão de ninguém” conta como foi o processo: “Eu vinha conversando com a Duda porque me propus a ressignificar as tatuagens das mulheres que sofreram abuso. Assim, surgiu a ideia e compartilhamos no grupo de tatuadoras, onde começamos a discutir a possibilidade de criarmos uma cartilha que evite que isso aconteça. Todo o processo foi super colaborativo. Cada tatuadora acrescentava uma ideia e fomos escrevendo, editando juntas.”

Além das tatuadoras, a cartilha foi feita em parceria com o Coletivo Não é Não, que há três anos trabalha a pauta do assédio em diversos espaços, e tem como ferramenta de diálogo tatuagens temporárias com os dizeres “Não é Não”. O trabalho do coletivo tem caráter educativo e preventivo, e forma uma grande rede de apoio entre mulheres. Os homens são incluídos em todo o debate como co-responsáveis para difusão da pauta e combate à violência contra a mulher, em busca de uma sociedade mais justa, relata Luiza Alana, embaixadora do Coletivo não é não.

“Assim, elaboramos uma cartilha explicativa contendo informações sobre o que constitui crimes de importunação sexual e estupro; como é um procedimento profissional da tatuagem, exemplificamos o que pode ser caracterizado como esses crimes durante uma sessão e dicas de como acolher a vítima, como prevenir o assédio nos estúdios (voltado para profissionais); e o que fazer caso você sofra um abuso.” , explicou Moa que atuou principalmente na elaboração do projeto gráfico, diagramação, impressão e comunicação do material.

“Foi um processo super coletivo, ao todo somos um grupo com mais de 20 colaboradoras. A ilustração também foi colaborativa, tem ilustrações de todas as tatuadoras envolvidas, além da imagem do cartaz das Guerrilla Girls, referência na luta feminista. Todo o processo foi feito a muitas mãos”, contou Thereza, muito feliz com o resultado.

O diferencial dessa cartilha é que ela conversa tanto com profissionais quanto clientes, e dá instruções claras sobre como agir no estúdio, prevenir um abuso e também, como lidar, caso isso aconteça.

Estúdios conscientes

Disponibilizar a cartilha no seu estúdio de tatuagem é um ato de solidariedade com a causa, demonstra seriedade e compromisso com a arte.

“A informação é essencial, é o caminho para o nosso empoderamento e para a transformação da nossa realidade.”, afirma Moa

A tatuadora informa que a primeira tiragem tem mil exemplares impressos, e disponibilizamos a cartilha na internet. É importante ressaltarmos que com a ajuda dos parceiros Entre Campo e Casa Juta foi feita lançamento da cartilha física.

“Todo estúdio deve disponibilizar a cartilha e isso já mostra de antemão que aquele é um espaço que entende sobre a precariedade da convivência das mulheres em certos lugares e que está disposto a mudar esse cenário, produzindo um espaço saudável, seguro e não-machistas para as mulheres.”, disse Thereza.

Ação e resultados

Thereza conta que “o impacto que já está gerando é que as pessoas saibam que existe uma mobilização de homens e mulheres que estão atentos a esse tipo de situação de assédio e que isso não vai passar batido. O que aconteceu em março serviu para mobilizar, sensibilizar e se conscientizar sobre isso. A cartilha vai fazer esse movimento perseverar e continuar existindo. Isso não vai morrer só no escândalo de março. A cartilha ajuda que esse movimento não saia de pauta e que de fato, ajude a evitar que isso aconteça. As informações contidas ali evitam que isso seja apenas um evento isolado.

A luta deve continuar.”

“Esperamos que o impacto da cartilha seja colaborar para que nosso lugar de trabalho seja cada vez mais sério, profissional,  seguro e libertário.”, afirma Moa.

Duda Salabert segue com o projeto @foieledenuncia , página no Instagram para receber e expor denúncias de assédio sexual.

As denúncias serão compartilhadas anonimamente e vão descrever o tipo de assédio e o local onde ocorreu. A cada mês uma profissão temática: médico, professor, instrutor de academia, motorista, etc.

A página possui os objetivos de orientar mulheres sobre maneiras e locais onde fazer a denúncia formal  e também criar pontes com espaços e projetos de apoio psicológico e jurídico às mulheres vítimas de violência sexual.

Todas as mulheres que criaram a cartilha  Minha tatu, minhas regras  seguem espalhando conscientização e arte por Belo Horizonte, Minas Gerais e o Brasil inteiro.

Luciana Leal, da FIND Tattoo segue encontrando pessoas e iniciativas maravilhosas como essas, de mãos dadas, em defesa à vida e aos direitos das mulheres.

O abusador, aguarda o julgamento por violação sexual mediante fraude. A pena prevista para esse tipo de delito é reclusão de dois a seis anos.

E você, que quer apoiar e difundir a cartilha, entre em contato através do email apoieminhatatu@gmail.com

Vai fazer uma tatuagem? Se informe! Possui um estúdio de tatuagem? Se informe também. Podemos e devemos lutar contra o machismo de todo dia. Ações louváveis como essa precisam ser espalhadas por aí. Vão salvar a pele de muita gente.