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Futebol e tatuagem: Representatividade rompendo barreiras

27 de outubro de 2021 Luciana-Leal Compartilhar facebook Twitter
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A tatuagem é uma forma de intervir no corpo cultuada no mundo há tempos. Essa arte permanente da pele humana já foi usada para as mais diversas finalidades, como enfeitar autoridades e poderosos ao longo da história, unir tribos e povos, afastar inimigos e até mesmo para objetivos mais individualistas, como mostrar preferências, cobrir cicatrizes e até mesmo melhorar a autoestima.

A princípio, sabemos que as tatuagens variam muito. Ainda mais no tocante a estilo, cores, tamanhos e lugares no corpo! É muito comum que a gente ache o desenho bonito e queira fazer uma tatuagem! 

A tatuagem pode ter representatividade também, pode marcar algo extremamente importante para você. Ou até mesmo ser representativa para toda uma comunidade, que vem lutando para conquistar seu espaço e direitos.

Representatividade: Manequinho trans

É muito comum encontrarmos pessoas com tattoos de times de futebol, desde pessoas apaixonadas por um time que tatuam o escudo do time de coração, até mesmo aqueles que optam por tatuar o mascote do time. Fazendo uma homenagem singela a paixão que sentem por aquele time.

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Theo Fisher, estudante de psicologia de 25 anos, decidiu demonstrar seu amor pelo seu time do coração, o Botafogo do Rio de Janeiro. Para marcar esse amor ele decidiu tatuar o manequinho, mascote do time.

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Theo e seu pai no jogo de futebol do botafogo

Porém, Theo não quis tatuar o menino cis fazendo xixi, ele preferiu ressignificar o símbolo.  Juntamente com Nuna Hickmann– tatuador e cartunista – responsável pelo desenho, foi criando o manequinho com representatividade trans. 

Nuna, tatuador trans não binário, nos deu detalhes de como foi o processo criativo de construção desse trabalho

[…] Inicialmente busquei a referência do mascote original e mantive algumas características, como a camiseta do Botafogo e os tênis, em seguida fui alterando detalhes do rosto e do cabelo, para tornar o personagem mais parecido com o Theo. Ele gostou muito da ilustração, apenas pediu para adicionar o balão com a  fala. um recurso que utilizo muito na produção dos meus quadrinhos, e então colocamos a frase “é diferente”.[…]

 

 

 

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Ainda, segundo Nuna, a arte é uma ferramenta política muito importante, através dela ele consegue produzir conteúdos sobre corpos e vivências que muitas vezes são invisibilizados! Assim, ele dá mais visibilidade e representatividade, além de empoderar essas pessoas.

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Nuna , se preparando para tatuar

Fazer essa tattoo era uma ideia antiga de Theodoro,  ele nos contou que em 2019 ele já havia comentado que tinha o desejo de tatuar um boneco com vulva de fora. A ideia de juntar  essa ideia com o manequinho, veio esse ano! Assim ele conseguiu tatuar um símbolo de representatividade e paixão pelo Botafogo!

Quando questionado sobre o fato de sua tattoo ter viralizado nas redes sociais, Theo conta que ficou surpreso, até mesmo assustado. Segundo ele,

“[…] achei que eu iria atingir apenas os comentaristas botafoguenses e a torcida, mas foi muito maior. Fiquei um pouco afastado das redes sociais nos primeiros dias pois não estava acostumado, mexeu um pouco com meu psicológico mas consegui usufruir disso tudo para ajudar um pouco minha comunidade.”

Assim como Theo, Nuna, ficou extremamente feliz por conseguir atingir muitas pessoas, ver o trabalho sendo divulgado é muito maior que o medo de comentários preconceituosos, mas o medo ainda existe. 

 

Ele ainda revela que ser ponte para o diálogo com a representatividade, expor a sua vivência é uma ferramenta potente de modificação e questionamento social, frisou Nuna. 

Família, amigos, torcedores

Para a família e amigos a recepção também foi tranquila. Um dia antes de tatuar ele contou para a mãe o que iria tatuar, esperando que ela não receberia bem, mas ela gostou! Ele ainda relata que alguns botafoguenses no twitter comentaram sobre algumas de suas reportagens, e chegaram a questionar qual a relação do preconceito com futebol. 

Para o estudante esse comentário é reflexo do fato de que o Brasil não tem ideia dos problemas que a comunidade LGBTQIA+ enfrenta,  pois é o  país que mais mata pessoas trans e ao mesmo tempo o que mais consome pornografia trans. “Não é necessário falar sobre preconceito e discriminação para quem?  É muito mais fácil continuar na ignorância e deixar o futebol como é e sempre foi.”

Representatividade viralizou!

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Theo, ficou muito feliz em ter causado impacto e revela que se conseguir atuar ajudando a causa LGBTQIA+ o deixa muito contente! Ele revela que se conseguir causar impacto na vida de uma pessoa , todo o esforço já terá válido a pena! 

Theo, você já impactou milhares de pessoas, tenha certeza!

Nuna, acredita que esse é um passo importante para desconstrução do machismo que ainda permeia a nossa sociedade. Ele acredita que o fato da tattoo ter viralizado nas redes sociais expõe a necessidade da representatividade e a valorização de outros sujeitos, histórias e narrativas!  Ele ainda deixa claro o respeito pela história da tattoo como um todo, mas tenta imprimir a identidade da comunidade LGBTQIA+  e das novas gerações que agora questionam tudo que é imposto.

E termina com um pedido para todos, todas e todes 

“Fica o pedido especial […] dêem oportunidade e valorizem profissionais da comunidade LGBTQIA+, em especial pessoas trans, que sempre existiram e continuam buscando espaço e reconhecimento no movimento da tatuagem e da contracultura.”

Que relato, hein? 

Quer uma ajuda para encontrar o tatuador ideal para o seu próximo rabisco? Tem alguma tattoo relacionada a representatividade? E a superação? Conta aqui! Se quiser fazer uma tattoo chama a gente também